Meu ócio criativo.

Washington Olivetto

Normalmente, sou bastante relaxado. Porém, num momento de dificuldade, tendo a me concentrar e a me superar. Cresço nos momentos adversos. Nem creio que seja uma qualidade. É uma característica minha. Talvez eu tenha nascido assim. Talvez seja um traço de personalidade definido ainda na infância.

Esse jeito de ser já se expressava entre 1955 e 1956, quando tinha meus 5 anos de idade. Um dia, eu fervi. Comecei a suar. Depois, tiritei de frio. Minha mãe logo detectou a febre, uma febrona. Para me ver foi chamada uma tia minha, diretora de um serviço de saúde na capital.

Ela fez com que me examinassem, mas não souberam determinar a enfermidade que me acometia. Os exames clínicos tampouco esclareceram o mistério. Suspeitaram, então, que o mal oculto fosse o poliovírus, causador da poliomielite, a popular “paralisia infantil”.

Pronto! Um susto tremendo na família. Na época, os pais viviam assombrados com imagens publicadas nos jornais e revistas. Mostravam crianças com poliomielite bulbar e paralisia do diafragma incapazes de respirar. Nesses casos, eram mantidas vivas por medonhas máquinas de pressão cíclica. Eram os chamados “pulmões de ferro”, mais assustadores do que a própria morte.

A primeira vacinação em massa contra a pólio estava sendo realizada justamente naquela época, pelo Dr. Jonas Salk. Mas isso nos Estados Unidos. Era ainda uma profilaxia considerada precária. A boa vacina, desenvolvida pelo Dr. Albert Sabin, essa da “gotinha” simpática, somente seria lançada no mercado na virada de 1961 para 1962.

Pelo sim e pelo não, pela falta de certeza e de remédio apropriado, resolveram me imobilizar e confinar num quarto de casa. Você pode imaginar o que é encarcerar um moleque serelepe por conta de uma doença apenas presumida?

Primeiro, pensei em me revoltar. Depois, compreendi que se tratava de justa precaução. Meus familiares não me queriam torto ou no terrível “pulmão de ferro”. Além disso, desejavam preservar de uma possível contaminação minha irmã recém-nascida. Aceitei o tratamento preventivo, que incluía uma alimentação especial e um trabalho regular de fortalecimento de músculos.

Ali, na cama, comecei a pensar num jeito de fazer o tempo escoar mais rapidamente. Assim, sem muito método, com a ajuda do povo de casa, especialmente dessa tia diretora de um serviço de saúde, aprendi a ler e escrever. De repente, eu podia fugir da minha “cela” pela janelinha dos livros. Conhecia lugares e vivia aventuras por meio da magia das palavras impressas.

Certamente, esse episódio me ajudou a desenvolver métodos intuitivos de autoaprendizado e, de certa forma, me lançou também no universo das ideias e da comunicação. Foi um limão que transformei em boa limonada.

Passei praticamente um ano nesse processo de terapia preventiva. Quando voltei a visitar o quintal de casa, tinha como bagagem os saberes proporcionados pela leitura. E como prêmio pelo sacrifício, uma estrutura muscular à prova de estiramentos e distensões, além de uma quantidade verdadeiramente absurda de cálcio no corpo.

Até hoje, quando comprimo os dedos, faz um barulho que assusta qualquer desavisado. Creck! Creck!

Extraído do livro “O que a Vida me Ensinou” de Washington Olivetto, considerado por muitos o maior nome da publicidade brasileira, e um dos mais importantes da publicidade mundial de todos os tempos.

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