21 Anos de Erradicação da Pólio no Brasil

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Nesse momento em que se celebra os 21 anos de erradicação da poliomielite no Brasil, é uma honra estar aqui na Fiocruz para falar sobre o papel do Rotary na erradicação da pólio, sobretudo por estar perante alguns dos principais protagonistas que tornaram isso possível, e contribuem para que o Brasil faça a sua parte para permitir a erradicação global da doença.

Algumas pessoas aqui presentes podem não saber que o Rotary, uma entidade social não governamental foi uma das iniciadoras da erradicação global da pólio e tem sido um de seus principais mantenedores. Eu era uma dessas pessoas. Até que um dia, um ex-colega da faculdade de contou que era o Rotary que doava vacinas da pólio para o programa de erradicação no mundo e no Brasil, inclusive.

Por conta disso, acabei ingressando no Rotary em 2006, justamente no ano em o programa de erradicação vivia um dos piores momentos de sua história: a pólio havia retornado a vários países da África e o desânimo e descrença com o programa haviam se instalado. Então, no ano seguinte, veio o homem mais rico do mundo e declarou que a erradicação da pólio passara a ser o objetivo número um dele – Bill Gates. Logo quis saber que razões teriam levado aquele homem a concluir, primeiro, que erradicar a pólio era possível e, segundo, que seria melhor prosseguir até o fim. Passei a trabalhar como voluntário para a causa, e por conta disso tenho hoje o privilégio de estar aqui com vocês.

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O envolvimento do Rotary com a poliomielite no Brasil teve início em 1986, quando doou 6 milhões de dólares ao governo brasileiro para a compra de vacinas (o equivalente a 13 milhões de dólares de hoje) , quantia suficiente para vacinar todas as crianças do país (daquela época) durante 5 anos, e ofereceu o apoio de sua rede voluntários espalhados no país. Com isso, o Rotary passou a participar da coordenação do programa no país.

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O Rotary enviou manuais de procedimentos e criou Comissões Pólio Plus em cada Rotary Club do país, e enviou milhares de voluntários às ruas para ajudar a realizar as campanhas de imunização. Em diversas cidades, o Rotary ajudou a mobilizar dezenas de milhares de voluntários, colocou outdoors e providenciou transporte de vacinadores, gelo, e refeições aos postos de saúde.

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Outro resultado da atuação do Rotary foi a criação em 1987 de uma Instrução Normativa da Receita Federal, que permitiu abater do Imposto de Renda as doações feitas à Comissão Nacional Pólio Plus do Rotary no Brasil. E durante a fase de certificação, o Rotary passou a oferecer um prêmio de mil dólares para a pessoa que notificasse um caso de paralisia infantil.

A OMS afirmou que o programa de erradicação da pólio é o maior movimento social organizado em tempos de paz da história com mais de 20 milhões de trabalhadores e voluntários. Destes, 1 milhão e 200 mil são do Rotary. E Bill Gates disse que o Rotary é o coração e alma do programa de erradicação da pólio.

Mas que organização é essa que está por trás desse movimento?

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O Rotary é uma organização de pessoas que ajudam a estabelecer a paz e boa vontade no mundo através de serviços humanitários. Somos uma associação mundial com 35 mil Rotary Clubs presentes em 200 países, e temos uma Fundação com patrimônio de 1 bilhão de dólares e que investe anualmente mais de 200 milhões de dólares em projetos humanitários. Mas de longe, o nosso maior programa – e o mais prioritário – é a erradicação da pólio.

O Rotary no Brasil é um dos 10 maiores do mundo em quantidade de sócios e contribuição financeira, ao lado de países como os EUA, Alemanha, Japão e Índia. Algumas pessoas podem ter a impressão de que o Rotary é uma agremiação elitizada. Talvez porque já fizeram ou fazem parte do Rotary, grandes empresários, e pessoas que se tornaram ministros e chefes de estado. Isso permite ao Rotary interagir com altos mandatários de nações e organizações governamentais. e conseguir assim obter doações para a pólio.

Por outro lado, o Rotary também tem uma imensa legião de voluntários que estão na base da pirâmide, que procuram contribuir usando o seu tempo e habilidades profissionais, para divulgar a causa, arrecadar recursos, ou ajudar nas campanhas de imunização.

E como é que o Rotary conseguiu se colocar na liderança de um programa global como esse? Como é que nós conseguimos levantar 1 bilhão e 300 milhões de dólares até agora, e por isso, fomos por muito tempo o maior doador privado do programa?

A primeira experiência do Rotary nessa área aconteceu em 1979 como um projeto de fornecimento de vacinas para as crianças das Filipinas, que era o país com a maior incidência de pólio na região do Pacífico. Outras campanhas se sucederam até 1984 em mais 12 países, em parceria com a OMS e o UNICEF, com campanhas pontuais, sempre no âmbito do EPI, o Programa Expandido de Imunizações, porém sem nenhuma agenda global de combate a pólio, até então.

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Em 1979, Clem Renouf, Presidente mundial do Rotary, estava voltando das Filipinas onde tinha ido formalizar os acordos para o lançamento daquele primeiro projeto de fornecimento de vacinas. No avião leu a notícia de que a varíola tinha acabado de ser erradicada, e ele se perguntou se o Rotary poderia ajudar a erradicar outra doença, com igual sucesso.

Chegando à sede mundial do Rotary nos EUA, Renouf falou com o médico John Sever, então Governador Distrital do Rotary em Washington D.C. e Chefe de Infectologia do NIH, Instituto Nacional da Saúde dos EUA. Sever, que era amigo de Jonas Salk e Albert Sabin, recomendou que a pólio fosse a doença escolhida. Teve então início um processo que durou 5 anos, e que culminou no lançamento, em 1985, do Programa Pólio Plus do Rotary de financiamento ao combate à doença.

Apesar do EPI ser preconizado pela OMS desde 1974, com a erradicação da varíola em 1979, surgiu uma minoria na saúde pública que passou a defender a tese da erradicação de doenças preveníveis por vacina. É nesse momento que entram em cena alguns brasileiros, cuja importância foi crucial para levar o mundo à tentar um novo programa de erradicação. O Dr. João Baptista Risi Júnior, que iniciou os bem sucedidos “Dias Nacionais de Imunização no Brasil” em 1980, e que serviram como prova de conceito para a OPAS, o Dr. Carlyle Guerra de Macedo que assumiu a Direção Geral da OPAS em 1983, e convidou o Dr. Ciro de Quadros para dirigir o Programa Expandido de Imunizações da OPAS na Região das Américas. Curiosamente, todos eram fortes adeptos do EPI. Mas Ciro, tendo em vista o sucesso brasileiro, e a sua experiência na erradicação da varíola na Etiópia, sugeriu adotar uma doença principal que atraísse a atenção do público e apoio ao programa – a poliomielite.

O Rotary contava então com a assessoria de Albert Sabin para o desenvolvimento do Programa Pólio Plus. E foi através dele que chegou a Ciro de Quadros. Com a parceria montada, em 1985, a OPAS lançou o programa, mesmo sem o apoio da OMS.

O rápido sucesso do programa da OPAS convenceu a OMS a lançar o GPEI, Iniciativa Global para Erradicação da Pólio, em 1988. Dentre os Rotarianos que atuaram junto à OMS para a criação do programa estavam John Sever e o médico Carlos Canseco, Presidente Internacional do Rotary e ex-Ministro da Saúde do México. A maior dificuldade, segundo eles, não foi a de convencer a OMS a lançar o programa global; foi a de aceitar uma parceria público-privada com o Rotary, que ainda era visto como uma mera entidade filantrópica. Mas a atuação do Rotary no programa da OPAS acabou fazendo a diferença.

Quando fomos finalmente convidados a integrar a coalizão formada para liderar o GPEI, o Rotary passou a ser o braço voluntário do programa, ficando responsável pela defesa da causa, mobilização de voluntários e obtenção de recursos.

O Rotary conseguiu levantar até hoje 1 bilhão e 300 milhões de dólares para a erradicação da pólio. Essa quantia só é superada pelas doações dos EUA, de 2 bilhões de dólares (mas resultante da advocacia do Rotary junto ao Congresso americano), e da Fundação Gates de 1,6 bilhões de dólares. Enquanto que o dinheiro doado pela Fundação Gates vem de poucos e grandes doadores privados, o dinheiro do Rotary vem de muitos e pequenos doadores.

A primeira grande campanha de levantamento de fundos ocorreu em 1985 quando entramos no programa da OPAS. Naquele momento, já tínhamos em vista realizar um programa mundial, então o Rotary criou o Programa Pólio Plus, e lançou o desafio de levantar 120 milhões de dólares em 3 anos.

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A grande pergunta que se fez foi como o Rotary poderia fazer isso, se a arrecadação na época era de 3 milhões de dólares por ano?

Surpreendentemente, o Rotary conseguiu levantar mais que o dobro da meta: 247 milhões de dólares. Foi como na Marcha dos Centavos dos EUA: de moeda em moeda. No Brasil, os Rotary Clubs fizeram de tudo: shows, pedágios, sorteios, churrascos, desfiles de moda, bingo, e até mesmo loterias estaduais. Mas a maior parte da contribuição veio de Rotarianos.

As doações do Rotary têm variado de destinação à medida que o programa de erradicação evolui. Durante o programa da OPAS, iniciado em 1985, as doações eram concedidas diretamente aos países para a compra de vacinas. Mas quando começou o programa da OMS, em 1988, as doações passaram a ser feitas à OMS e ao UNICEF, para custear os salários das equipes da OMS, o treinamento do pessoal de laboratório para vigilância epidemiológica e mobilização social. E desde 1993, o Rotary vem ajudando a custear as campanhas, vigilância epidemiológica, e advocacia da causa.

Até 1996,na África, nenhum país exceto a África do Sul havia iniciado suas campanhas de imunização, o que poderia por em risco outros países que tinham conseguido se livrar da pólio. E outra coisa que se descobriu também foi que em vários países, seriam necessárias mais que as três ou quatro doses recomendadas da vacina. Isso fez aumentar a necessidade de recursos do programa. Foi a partir daí que o Rotary começou a buscar o apoio dos países do G8. E o Reino Unido, Japão, Alemanha, Canadá e EUA, passaram a ser grandes doadores do programa desde então. Para angariar doações, argumentamos que, além das razões de ajuda humanitária, sai mais barato investir na erradicação global que manter a população permanentemente imunizada contra a pólio.

As datas previstas de finalização do programa de erradicação têm sido postergadas por diversas vezes. Tivemos um grande retrocesso em 2005/2006 devido ao boicote à vacinação pelos líderes religiosos do norte da Nigéria, o que fez o vírus retornar a vários países da África. Foi quando ocorreu o pior que pode acontecer em um programa dessa natureza: o cansaço dos doadores e a descrença dos trabalhadores do programa – dois dos principais fatores que sustentam uma iniciativa de erradicação. Foi quando os opositores começaram a propor a desistência da programa.

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Então em 2007, tivemos o ingresso da Fundação Gates no GPEI e que foi marcado pelo desafio feito ao Rotary de doar em conjunto 200 milhões de dólares, meio a meio, quantia essa elevada no ano seguinte para meio bilhão de dólares. Foi como um raio de luz. Para levantar o dinheiro, em fevereiro de 2008, as palavras “End Polio Now” foram projetadas na parede externa do Parlamento de Londres, e o Rotary lançou aos Rotarianos do mundo inteiro um desafio. Cada Rotary Club recebeu a meta de contribuir com pelo menos US$ 1.000 por ano, até conseguirmos a nossa parte, o que levou 4 anos.

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É sabido que ficam para a última etapa do programa de erradicação aqueles países mais difíceis de se chegar às crianças, pelas dificuldades do terreno, ou existência de zonas de conflito. A Nigéria tem o grupo extremista Boko Haram, e o Paquistão, o Talibã. Ambos se opõem à vacinação de crianças. O último retrocesso do programa ocorreu em 2013/2014, quando o vírus, saindo da Nigéria e do Paquistão, retornou novamente a vários países da África, Síria e Iraque, o que obrigou a OMS declarar emergência da saúde pública global para a pólio, e todos os viajantes internacionais das áreas de risco passaram a ser vacinados. Em cada um desses episódios, a atuação do Rotary foi imediata, fazendo a defesa da causa e liberando recursos emergenciais para a compra de vacinas.

Em todos os países temos Comissões Pólio Plus para levantar recursos e fazer a defesa da causa. Mas nos países endêmicos, as Comissões Pólio Plus interagem com os técnicos e autoridades do país, da OMS e do UNICEF, liberando recursos, defendendo a causa, organizando campanhas e outras iniciativas, como os bem sucedidos Centros de Operação Emergenciais criados na Nigéria. Esses Centros reúnem em um mesmo local todas as partes envolvidas: OMS, UNICEF, Rotary, CDC, Fundação Gates e Ministério da Saúde do país, e foram fundamentais para o sucesso no combate à Pólio na Nigéria, aliada à desarticulação Boko Haram pelo governo.

Agora, o Paquistão é praticamente o último reduto do vírus da pólio, e também do Talibã. Mas felizmente, no início deste ano, as forças armadas do país por fim interviram, desarticulando a organização terrorista, o que possibilitou a imunização em massa de crianças e pessoas que nunca haviam sido vacinadas, renovando com isso a perspectiva de que os dias dessa doença estão contados.

Para concluir, em nome do Rotary, quero agradecer ao convite que nos foi feito pela Dra. Dilene Raimundo do Nascimento para participar deste evento, e dizer que apesar da importante conquista do Brasil na erradicação da pólio que comemoramos hoje, e dos avanços do programa da erradicação no mundo, ainda temos um enorme trabalho pela frente.

Neste exato momento, existem 20 países da África e alguns da Europa como a Ucrânia e Turquia, que a despeito de não terem a doença, mas por motivo de pobreza ou conflitos, abrigam crianças que nunca foram vacinadas. Ao todo são 2 milhões e 700 mil crianças, e cada uma delas corre o risco de contrair o vírus da pólio, fazendo a doença retornar ao país. Cada ano que atrasamos custa 1 bilhão de dólares para a coalizão, em campanhas de vacinação e vigilância da doença, o que tem criado uma grande pressão para os parceiros do programa.

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Por isso temos pressa de acabar com a pólio, e por isso o nosso slogan, “Faça parte da história. Acabe com a pólio, agora”. Muito obrigado.

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Palestra proferida em 28/11/2015, no Seminário Pólio Nunca Mais: 21 Anos da Erradicação da Poliomielite no Brasil, COC/Fiocruz, por Wan Yu Chih, Membro da Subcomissão Distrital Polio Plus do Rotary Distrito 4651 de Santa Catarina.

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