O Talibã e a Pólio

Primeiro, foram os líderes religiosos islâmicos. E logo, inúmeras ações de convencimento foram realizadas pelo programa de erradicação da pólio, o que surtiu efeito, mas não resolveu o problema. Agora, o que impede o fim da pólio no mundo é o conflito provocado por militantes extremistas religiosos.

Até o surgimento do Talibã no Afeganistão e no Paquistão, e do Boko Haram na Nigéria, o combate à pólio desfrutava de uma tranquilidade política. O Boko Haram e o Talibã defendem a adoção de um estado islâmico em seus países, governado por clérigos e regido por leis islâmicas. Ambos têm a mesma ideologia e foram treinados pela Al Qaeda, que prega uma revolução islâmica global através do terrorismo, e surgiram no vácuo deixado pela pobreza, desigualdade e injustiça. Infelizmente, lutam pelo que defendem com violência e terror, obstruíndo a vacinação de crianças contra a poliomielite.

“Educação ocidental é pecado”

Em 2003, no norte da Nigéria, líderes religiosos ordenaram um boicote à vacinação, alegando que as vacinas estavam contaminadas, como parte de um plano do Ocidente para matar muculmanos e limitar o aumento da população. Isso fez o programa de erradicação retroceder uma década naquele país. O rumor não veio do nada. Em 1996, em meio a uma epidemia de meningite na Nigéria, a Pfizer ministrou um novo antibiótico, ainda em fase de teste, em 200 crianças, sem o consentimento dos pais. Onze delas morreram e muitas outras sofreram sequelas. Isso aconteceu exatamente no ano que Nelson Mandela, tendo sido eleito Presidente na África do Sul, conclamou a todo continente africano que iniciasse as campanhas de vacinação contra a pólio.

Boko Haram significa “educação ocidental é pecado”, e condena tudo o que vem do Ocidente, inclusive a vacinação. Surgiu em 2002, como uma escola para preparar jovens muçulmanos de famílias pobres, com o objetivo de se criar um estado islâmico. Em 2013, eles passaram a matar os vacinadores da pólio. Segundo o Governador de Borno, o maior reduto do Boko Haram, “eles estão mais armados e mais motivados que as nossas tropas. É impossível derrotá-los”.

Por tudo isso, é fácil entender porque a Nigéria é um dos últimos países a se livrar da doença. Mesmo assim, graças à ação do Governo, das forças armadas, perseverança e engenhosidade das equipes de vacinação, hoje, a Nigéria está a quase 1 ano sem nenhum caso da doença.

Boatos

Desde que as campanhas de vacinação começaram no Paquistão, em 1994, mais de uma centena delas já foram realizadas. Mesmo assim a pólio ainda persiste. Por isso, o sentimento de que as campanhas são intermináveis tem levado à conspiratórias. Lá também existe a alegação de que a vacina é parte de um complô do Ocidente para esterilizar muçulmanos. O rumor deve ter surgido devido as jaquetas usadas pelos vacinadores da pólio serem parecidas com aquelas usadas na campanha de planejamento familiar.

Alguns clérigos alegam que a vacina contém ingredientes derivados de porcos, proibidos aos muçulmanos. Mas ter receio da vacinação não é exclusividade de religiosos islâmicos. Alguns grupos religiosos cristãos também se opõem à vacinação, alegando um suposto uso de células humanas na pesquisa e fabricação.

Os “Estudantes”

Talibã quer dizer “estudantes”. Ele surgiu no Afeganistão como uma milícia, em 1994, logo após a guerra com a União Soviética. Chegou ao Governo em 1996, e após 11 de setembro de 2001, foi perseguido por abrigar Osama bin Laden, e boa parte fugiu para o Paquistão, onde ainda impera. Seu membros vieram de escolas para jovens muçulmanos, preparados com o objetivo de se criar um estado islâmico.

Em alguns locais, graças à falta de entusiasmo dos dirigentes, muitos vacinadores pararam de se importar, também. Compreensivelmente, eles pararam de ir aos vilarejos nas montanhas ou deserto do Paquistão. As autoridades da saúde passaram a usar rastreadores GPS nas geladeiras de isopor que levam as vacinas, para verificar se os vacinadores estavam indo aos locais designados. Quando os Estados Unidos começaram a bombardear, em 2004, com drones, o território do Talibã no Paquistão, o GPS se tornou suspeito e começaram a acusar os trabalhadores da saúde de serem espiões dos americanos.

O Talibã se opõe aos programas de saúde por acreditar que os programas são fachada para atividades de espionagem. Em 2011, durante a perseguição a bin Laden, um médico paquistanês, trabalhando para a CIA, obteve o DNA de crianças vacinadas, usando como fachada uma campanha de imunização da Hepatite B. A prisão do médico causou bastante estrago ao programa de erradicação da pólio, no Paquistão. O episódio enfureceu a comunidade da saúde pública nos EUA. Em janeiro de 2013, os reitores das 12 principais escolas de saúde pública escreveram uma carta ao Presidente Obama, criticando veementemente o uso de campanhas de vacinação pela CIA, pondo em risco o programa de erradicação da pólio, e a credibilidade das organizações humanitárias internacionais.

No ano seguinte, o Talibã, no Paquistão, ordenou o bloqueio à vacinação da pólio até que os EUA parassem os ataques com drones na área, afirmando que os ataques matavam e aleijavam mais civis que a pólio.

Na etnia Pashtun, predominante na região em que habita o Talibã, é costume se manter as mulheres em casa, ou fazê-las usar a burca para sair à rua. Por isso, só vacinadoras do sexo feminino (vestidas de burca) podem ter acesso aos lares e às crianças para vacinação. Mesmo assim, o Talibã opõe-se à ideia de mulheres trabalhando, e não tem reservas em matá-las no cumprimento de sua missão. Somente nos dois últimos anos, foram mortos 66 vacinadores.

Contrariamente ao Boko Haram, não se pode dizer que o Talibã esteja mais armado que as tropas do Governo. Afinal, o Paquistão é um país governado por militares, e que apesar de sua enorme crise social e econômica, conta com mísseis nucleares capazes de destruir cidades inteiras. Cabe à comunidade mundial encontrar meios diplomáticos para acabar com esse último reduto do vírus da pólio e, finalmente, conseguirmos erradicar a doença.

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