Esperança de um futuro sem pólio

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Entrevistamos Abdulrahman Olatunji Funsho, que desde 2013 é o presidente da Comissão Nacional Polio Plus da Nigéria, um dos três países onde a poliomielite ainda é endêmica. A matéria foi publicada na Revista Brasil Rotário e é ilustrada com imagens cedidas pelo fotógrafo Tadej Znidarcic. Esloveno radicado em Nova York, ao final da matéria, ele conta como foi realizar esse trabalho a convite de rotarianos nigerianos.

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Um país cada vez mais perto de reescrever seu futuro. Nigéria vira o jogo e pode interromper em breve a transmissão do vírus.

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Wan Yu Chih *
Fotos: Tadej Znidarcic

Mais conhecido como Tunji Funsho, ele estudou medicina em sua terra natal e pós-graduou-se na Royal Medical School, em Londres, e na Harvard Medical School, em Boston. Depois de completar sua residência e trabalhar como cardiologista no Reino Unido, Funsho retornou à Nigéria, onde atuou como médico e passou a integrar o Conselho de Saúde Pública em Lagos e Kano. Em 1985, ele associou-se ao Rotary Club de Kano.

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Tunji Funsho, presidente da Comissão Nacional Polio Plus da Nigéria.

BRASIL ROTÁRIO: Como você entrou no Rotary e qual é a sua rotina diária como presidente da Comissão Nacional Polio Plus da Nigéria?

TUNJI FUNSHO: Ao longo de dois anos, um amigo meu já falecido, Sam Jabba, me chamou diversas vezes para participar como convidado das reuniões do Rotary Club de Kano, ao qual ele era associado. Como naquele tempo a minha vida profissional era muito ocupada, não tinha como ingressar no clube, o que só aconteceu em 1985, quando o ritmo das minhas atividades diminuiu. Meu dia começa normalmente às 5 da manhã, com uma oração. Em seguida escrevo as mensagens matinais que divulgo no Facebook e no WhatsApp. Dou então continuidade ao planejamento da minha agenda. Em seguida, respondo a emails e saio para uma caminhada com meu cachorro, Lapis. Retorno e me preparo para as atividades diárias, que envolvem reuniões, quase sempre relacionadas à erradicação da pólio, à gravação de um programa de rádio do Rotary e ao trabalho geral no escritório do Programa de Erradicação da Pólio. Isso tudo eu faço quando não estou na estrada participando de reuniões ou observando atividades de campo relacionadas à erradicação. Há dois anos, todo mundo pensava que a Nigéria seria o último país a erradicar a poliomielite.

Agora, a situação mudou, e pode ser que a transmissão do vírus seja interrompida nos próximos meses. O que aconteceu e quais são os maiores obstáculos que vocês ainda precisam enfrentar?

Acredito que a principal mudança positiva foi a criação da força-tarefa presidencial para a erradicação da pólio, o que indica o envolvimento do governo federal com a questão. Isso resultou na organização do Centro Nacional de Operações Emergenciais da Pólio (EOC) em Abuja, capital do país, e em mais sete Estados de alto risco. O EOC é o quartel da guerra contra o vírus, onde os técnicos de todas as instituições envolvidas no trabalho – OMS, Unicef, Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, Fundação Gates e Rotary – reúnem-se diariamente para planejar, elaborar estratégias e implementar atividades relacionadas à Iniciativa Global de Erradicação da Pólio, com informações de campo em tempo real e a possibilidade de intervenções rápidas. Desde 2003, todas as eleições na Nigéria resultaram no abandono do programa de erradicação da pólio e das atividades voltadas à prevenção de novos surtos no país.

Em fevereiro de 2015, haverá novas eleições. Você se preocupa com a possibilidade de um outro recuo das autoridades?

Nosso receio de que as experiências anteriores se repetissem nos levaram a convocar em abril do ano passado uma reunião de cúpula nacional contra a pólio para alertar todas as partes interessadas sobre a necessidade de mantermos os olhos focados nessa questão. Isso tem sido eficaz, porque desde então os recursos foram liberados e a liderança política, tradicional e religiosa do país seguiu demonstrando seu apoio ao programa com envolvimento efetivo.

“A principal mudança positiva foi a criação da força-tarefa presidencial para a erradicação da pólio, o que indica o envolvimento do governo federal com a questão”

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Por conta das falhas de registro das imunizações prévias e de problemas como desnutrição e diarreia, as crianças nigerinas precisam de um número maior de gotinhas contra a pólio.

Na maioria dos lugares do mundo, três ou quatro doses da vacina oral contra a pólio são suficientes para imunizar as crianças. Na Nigéria, no entanto, as crianças precisam de muito mais doses. Por quê?

Como muitas vezes não temos registros das imunizações prévias, esse procedimento garante que nenhum menino ou menina fique sem a proteção adequada. Além disso, por conta da desnutrição e da diarreia, é preciso que a vacina seja dada com mais frequência para proporcionar a imunidade necessária.

Em 2014 a Nigéria enfrentou alguns casos de ebola. Quais os impactos dos esforços de contenção do ebola sobre as campanhas de imunização contra a pólio na África?

A epidemia de ebola ressaltou a necessidade de não sermos complacentes em casos assim. Até agora, não houve qualquer impacto negativo sobre o programa de erradicação da pólio na Nigéria. Na verdade, algumas das nossas estruturas de combate ao poliovírus foram utilizadas no enfrentamento ao vírus do ebola. A imunização sincronizada, em larga escala e feita através das fronteiras, foi levada a cabo na África Ocidental e na África Central. Isso tem sido um grande sucesso.

Como voluntário, você também preside uma ONG para ajudar crianças com paralisia cerebral, mesmo sendo cardiologista. Como você acabou envolvido nessas causas?

O Rotary é uma organização maravilhosa, que envolve as pessoas com as necessidades de suas comunidades. Como líderes comunitários, os rotarianos são facilmente identificados e convidados a se envolver em mais atividades filantrópicas. O fundador e CEO da Benola, essa organização de apoio aos portadores de paralisia cerebral da qual participo, me chamou para ajudar como presidente do conselho consultivo. Minhas experiências como médico e rotariano são de grande valor na assistência à Benola em sua missão de garantir uma vida melhor às pessoas que vivem com paralisia cerebral. Elas precisam saber que não estão sozinhas.

A missão do Rotary é promover a compreensão mundial, a boa vontade e a paz. Como essa missão é manifestada na luta do Rotary contra a pólio e como os nigerianos veem nossa organização?

Eu acredito que nossos esforços para erradicar a poliomielite nos têm dado mais visibilidade, respeitabilidade e reconhecimento por parte dos líderes mundiais. Isso nos coloca em um bom lugar para intervir em outras áreas quando a pólio for erradicada. Cada vez mais, o Rotary é visto como um agente de mudança positiva, não apenas em relação à poliomielite, mas também em nossas outras áreas de enfoque, que incluem saúde e saneamento, saúde materno-infantil, alfabetização e educação, redução da pobreza, e prevenção e resolução de conflitos.

Que mensagem você gostaria de deixar para os rotarianos e os brasileiros em geral?

Por conta dos seus esforços e do sucesso conquistado até agora na erradicação da pólio e na promoção da paz por meio do companheirismo, os rotarianos devem ter orgulho de fazer parte dessa grande organização. Para os rotarianos no Brasil, quero dizer muito obrigado por seus contínuos esforços em nos apoiar, inclusive angariando fundos. Vocês devem continuar a apoiar o programa de erradicação da pólio até que esse trabalho esteja concluído.

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Sobreviventes da poliomielite disputam partida de futebol, esporte mais popular do país.

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Histórias socialmente envolventes

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Autor das imagens que ilustram esta matéria, fotógrafo esloveno Tadej Znidarcic comenta trabalho na Nigéria e em outros países.

“O trabalho que o Rotary está fazendo para combater a pólio é muito nobre e imensamente importante. Eu estava feliz por poder documentá-lo e tornar as pessoas mais conscientes a esse respeito”

BRASIL ROTÁRIO: Como surgiu seu interesse em documentar a poliomielite na Nigéria?

TADEJ ZNIDARCIC: Eu estava passando um tempo em Lagos quando vi na BBC uma reportagem sobre as vítimas da pólio em Kano e as atividades de uma associação local de apoio aos sobreviventes da doença. Achei o trabalho deles incrível e quis colaborar com a divulgação, documentando-o fotograficamente. Acabei fazendo contato com Uday Pilani, um rotariano que, na época, morava em Kano. Ele me convidou para viajar a Kano e conhecer os membros da associação.

Por que você aceitou o convite para colaborar com o Rotary?

O trabalho que o Rotary está fazendo para combater a pólio é muito nobre e imensamente importante. Eu estava feliz por poder documentá-lo e tornar as pessoas mais conscientes a esse respeito. Enquanto estava em Kano, presenciei uma das campanhas nacionais de vacinação. Foi inspirador ver as equipes de imunização em ação, protegendo a saúde das crianças. Depois eu também fotografei a campanha de imunização em Uganda.

O que mais chamou sua atenção na Nigéria?

Passei a maior parte do tempo na cidade de Lagos. Fiquei impressionado com seu tamanho e com a quantidade de pessoas que vivem lá. Há sempre muita vibração, tráfego congestionado, gente indo para algum lugar. Eu gostava muito daquela agitação. Infelizmente, segurança também é um problema, então eu tinha que estar mais alerta que o habitual. Mas as pessoas foram muito simpáticas e estou feliz por ter feito alguns bons amigos por lá.

Você já sentiu medo de fazer seu trabalho em algum lugar do mundo?

Não, nunca tive medo. Apenas algumas vezes suspeitei que meu equipamento estava atraindo atenção indesejada, então acabei mudando de local. Isso aconteceu uma vez na Nigéria e também na Albânia.

Você tem trabalhado em projetos na Nigéria, Uganda, Ruanda, Bangladesh e Kosovo. Existe um denominador comum que liga o seu trabalho a esses lugares?

Sempre fui interessado nas forças sociais, econômicas e políticas que influenciam a vida das pessoas. Gosto de trabalhar com histórias socialmente envolventes e que têm também
carregam algo de positivo. Gosto de conhecer e contar a história de pessoas que provocam mudança e que sabem persistir diante de situações difíceis. (WYC)

NA INTERNET
www.tadejznidarcic.com

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*O autor é presidente da Subcomissão Polio Plus do Rotary no distrito 4651 (Santa Catarina) e associado ao Rotary Club de Florianópolis.

Publicado na edição de fevereiro de 2015 da Revista Brasil Rotário.

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