As células dela ajudam a erradicar a pólio

Henrietta Lacks Cells

Ela tinha 30 anos quando sentiu uma dor insuportável no ventre e, logo, ficou sabendo que estava grávida do seu quinto filho. Mas depois de dar a luz, ela começou a sangrar sem parar, e o médico, preocupado, encaminhou-a ao Hospital Johns Hopkins, porque era o único por perto que aceitava pacientes negros. Lá, uma amostra do útero foi retirada e enviada para o laboratório. Foi quando identificaram que ela estava com câncer. Como era de costume, um saquinho de pano contendo materiais radioativos foi inserido em seu útero na tentativa de queimar o tumor, e ela foi enviada de volta para casa. Contudo, ela passou a sentir dores angustiantes e, sem sinal de melhora, retornou ao hospital, onde acabou falecendo. O câncer havia se espalhado pelo corpo inteiro. Dias depois da sua morte, descobriram uma coisa impressionante no laboratório. Normalmente, as culturas de células humanas sobreviviam apenas alguns dias, mas as dela continuavam vivas e se multiplicando. Eles as chamaram de “HeLa”.

Em 1951, os Estados Unidos estava em meio à pior epidemia de pólio de sua história. O pânico imperava e o público ansiava por uma vacina. No ano seguinte, Jonas Salk anunciou que havia conseguido chegar à vacina, a primeira do mundo, mas só que ela ainda teria que ser testada. Salk iria inocular 2 milhões de crianças com a vacina. Para provar sua segurança e eficácia, seria preciso fazer um outro teste logo em seguida, mais monumental ainda. Da amostra de sangue de cada criança vacinada seria retirado o soro, que por sua vez seria colocado junto com o vírus da pólio sobre uma cultura de células vivas. Se a vacina estivesse funcionando, o vírus não invadiria as células, o que seria facilmente observável através do microscópio. Porém, as células usadas para isso provinham de macacos. Surgiu então o seguinte problema: Como obter tamanha quantidade de animais para depois sacrificá-los?

A descoberta de que as células HeLa eram suscetíveis ao vírus da pólio resolveu a questão, e o fato de serem cancerosas somente as tornavam mais úteis, pois elas se reproduziam mais rapidamente que as células normais e produziam resultados em um tempo menor. Assim, uma fábrica foi criada especialmente para produzir as células HeLa para o gigantesco teste, que depois de concluído foi encerrada.

Enquanto isso, as células continuavam sendo doadas gratuitamente pelo Hospital para qualquer cientista que as pedisse, em benefício da ciência. E logo surgiram empresas que começaram a produzi-las e comercializá-las. As possibilidades pareciam infinitas. Indústrias farmacêuticas e de cosméticos começaram a usá-las, substituindo animais de laboratório. No meio científico, as células foram testadas com bactérias, hormônios, vitaminas, e submetidas à quimioterapia e à radiação. As células HeLa permitiram estudar a Síndrome de Down e o Parkinson, pesquisar o mapeamento genético, fertilização in vitro e multiplicação de células-tronco. Até ao espaço elas foram levadas para se investigar os efeitos da falta de gravidade sobre a multiplicação das células.

Atualmente, o anonimato é uma parte importante na pesquisa com células, mas nos anos 50 não era algo que preocupasse tanto. Face à importância da descoberta, o nome da mulher que originou as células logo acabou vazando para a imprensa. Enquanto as companhias que passaram a fabricar as células ganhavam bilhões de dólares, ironicamente, a família da doadora sequer tinha um plano de saúde, e até hoje nunca receberam um centavo. Quando descobriram a verdade, eles ficaram abismados, e furiosos. Porém, à medida que se inteiravam sobre os avanços da medicina possibilitados pelas células, o sentimento de indignação deu lugar ao orgulho. Hoje, as células HeLa estão em todo mundo. E todas, trilhões e trilhões delas, vieram de uma única pessoa – de Henrietta Lacks.

Baseado em “A Vida Imortal de Henrietta Lacks” de Rebecca Skoot.

End Polio Now Santa Catarina

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