O Ebola e a Pólio

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Em agosto, o Governo de Serra Leoa baixou uma lei proibindo as pessoas de ocultarem vítimas do Ebola em suas casas, sob pena de prisão. Agora, o governo decretou um confinamento obrigatório de três dias à população. O mundo inteiro acompanha com apreensão a epidemia que vem ocorrendo no Oeste Africano. A África é o maior destinatário dos recursos da Fundação Rotary e temos 36.000 Rotarianos naquele continente. Por isso questionamos se podemos fazer alguma coisa para ajudar, se a doença poderá chegar até aqui, e em meio a tudo isso, como ficarão os esforços de combate à Pólio. Da nossa parte, o primeiro passo é entender o que está acontecendo.

O que é o Ebola?

O pânico nas regiões afetadas lembra o medo que existia durante epidemias de Pólio, nos anos 40, no mundo Ocidental, quando não se sabia ainda como se dava o contágio e não havia a vacina. Apesar disso, a Pólio é uma doença antiga, que existe desde a época dos faraós. O Ebola é uma doença nova. O primeiro caso foi registrado somente em 1976. Ela mata até 70% das vítimas. A vacina ou cura ainda não foram descobertas. Os sintomas iniciais são febre, dor muscular, dor de cabeça e garganta. Em seguida vem os vômitos, diarreia, hemorragias na pele, gengiva, olhos e fezes. Não é o sangramento que mata as vítimas. É a perda de líquido, que ocasiona a queda da pressão sanguínea de tal forma que os órgãos internos do corpo acabam entrando em falência. É difícil distinguir os sintomas do Ebola de outras doenças infecciosas como Malária ou Meningite. Guiné, Serra Leoa e Libéria são os países mais afetados. São mais de 5000 casos da doença, com  2500 fatalidades até agora.

Emergência da Saúde Pública Global

Em maio deste ano, a Dra. Margaret Chan, Diretora Geral da OMS, anunciou que a Pólio é uma Emergência da Saúde Pública Global. Três meses depois, a Dra. Chan fez um novo pronunciamento, declarando que o Ebola (também) era um caso de Emergência da Saúde Pública Global. Antes de maio, a Emergência Pública Global havia sido declarada somente uma vez na história da OMS, durante a gripe suína em 2009.

Como o período de incubação da Pólio é de 3 a 35 dias, e do Ebola, 2 a 21 dias, um avião pode levar qualquer um destes vírus para qualquer parte do mundo. Durante a Copa do Mundo, o vírus da Pólio foi encontrado no esgoto no Aeroporto de Viracopos em Campinas, São Paulo. Foi a primeira vez em 20 anos que ele foi visto por aqui. O sequenciamento genético indicou que o vírus veio da Guiné Equatorial (não confundir com a Guiné que enfrenta a epidemia do Ebola), possivelmente trazido por um torcedor. No ano passado, o vírus também foi encontrado no esgoto em Israel e Egito, países livres da doença. Mas a Pólio é extremamente virulenta. No ano passado, em questão de meses, o vírus saiu de onde estava e vitimou centenas de crianças em Camarões, Guiné Equatorial, Síria, Iraque, Somália, Quênia e Etiópia.

Crenças, rumores e boicotes

Alguns obstáculos ao controle do atual surto do Ebola lembram os enfrentados pela Erradicação da Pólio: ignorância, crenças, rumores e boicotes. Rumores na Nigéria, em 2003, de que a vacina contra a Pólio causaria a esterilização das pessoas, levaram a um boicote à vacinação que causou a reintrodução do vírus em diversos países da África e Ásia.

O esforço de contenção do Ebola é prejudicado pela relutância de pessoas das zonas rurais em aceitar que o contágio se dá entre pessoas, como durante a lavagem dos corpos dos falecidos pelos familiares, uma tradição local. Devido à proibição aos familiares de verem as pessoas mortas pelo Ebola, foram espalhados rumores de que o vírus foi inventado para esconder rituais canibalísticos de trabalhadores da saúde. Ou de que “homens brancos” estariam conduzindo experimentos com a doença infectando as pessoas. Em abril deste ano, um grande número de pessoas atacou os Médicos Sem Fronteiras no interior da Guiné, forçando-os a deixar o local. Até a Cruz Vermelha foi obrigada a abandonar o país, depois de serem ameaçados por homens armados com facões. Existe até a crença de que o simples fato de se falar a palavra Ebola em voz alta faz a doença aparecer. Muitos condenam os médicos pela transmissão da doença, preferindo curandeiros tradicionais. Contudo, há motivo para isso. Nas epidemias anteriores, pela falta dos devidos cuidados, médicos e enfermeiros acabaram se tornando agentes de transmissão do vírus.

Enquanto que vacinadores da Pólio nos países endêmicos têm sido mortos por grupos extremistas religiosos, trabalhadores da saúde do Ebola têm sido mortos pelo vírus, principalmente os que têm contato com as pessoas infectadas. Os trabalhadores que lidam com o Ebola são os que correm o maior risco de contrair a doença, sendo de 10% dos casos e das fatalidades até hoje.

Origem do vírus

O único reservatório do vírus da Pólio é o ser humano. No Ebola, acredita-se que os morcegos (da fruta) sejam o reservatório natural do vírus. A doença é introduzida no homem através do contato com sangue ou secreções de animais infectados como chimpanzés, gorilas, macacos, porco-espinhos e os próprios morcegos. O vírus da Pólio sobrevive durante alguns dias no esgoto, o do Ebola sobrevive em objetos contaminados.

Todo vírus precisa de um hospedeiro vivo para se prosperar. Quanto menor a letalidade do vírus, melhor para ele, pois terá mais tempo para se reproduzir, contagiando uma número maior de pessoas. Enquanto que o Ebola se alastra estrondosamente, a Pólio se espalha silenciosamente. Como o Ebola mata furiosamente, o surto tende a se extinguir mais rapidamente que o da Pólio. Por isso, a Pólio apresenta um risco maior à saúde púbica global que o Ebola. A Pólio é muito mais contagiosa, pois o vírus é excretado ao meio ambiente pela pessoa infectada durante semanas. Apenas 1 pessoa a cada 200 infectadas manifesta os sintomas, e destas, somente 1 a cada 10 pessoas morrem.

Prevenção e controle da doença

Para se que consiga controlar o Ebola é preciso estabelecer um sistema de monitoramento e rastreamento dos casos, uma rede laboratórios para análise de amostras, e mobilização social. Uma legião de 30.000 voluntários está indo de casa em casa, em Serra Leone, procurando por vítimas, levando sabonetes e instruções para se evitar a doença. Alguns ficam em praças públicas com megafones avisando o público. Essa abordagem é semelhante ao utilizado pelo Programa de Erradicação da Pólio, e muito tem sido aproveitado dele. Mas há diferenças. Os trabalhadores da saúde devem utilizar equipamento pessoal de segurança. Toda pessoa que tenha tido contato com uma vítima do Ebola deve ser localizada e seu estado de saúde deve ser monitorado durante 21 dias. Se a doença se manifestar, a pessoa deve ser transferida para isolamento. Os mortos devem ser enterrados por trabalhadores da saúde.

A transfusão de sangue ou soro de sobreviventes do Ebola pode ser uma solução de cura, apesar da falta de evidências sobre a eficácia disso. Outra esperança é que vacinas experimentais que funcionaram em macacos, sirvam em seres humanos. Em agosto, a OMS divulgou um plano para o controle da epidemia em nove meses, chegando a 20.000 casos, a um custo de quase US$ 500.000. Todavia, estudos independentes projetam que poderemos ter até 277.000 casos ainda em 2014. No caso da Pólio, se o Programa de Erradicação fosse abandonado, atingiríamos 200.000 casos anuais de paralisia infantil, em poucos anos.

Mobilização mundial

Nos países afetados do Oeste Africano, são poucas as famílias que não sofreram casos de violência e assassinato. Não bastasse tudo isso, a epidemia tem prejudicado a atividade econômica, agravando a situação de pobreza já existente. Logo após a divulgação do plano da OMS, o Diretor Assistente da OMS, Bruce Aylward, responsável pela coordenação geral do GPEI – Iniciativa Global para a Erradicação da Pólio, afirmou que o custo para se controlar a epidemia do Ebola poderia facilmente superar a previsão inicial e escalar até 1 bilhão de dólares. (O custo atual de se acabar com a Pólio, para sempre, é de 5 bilhões de dólares, e faltam US$ 500.000 para completarmos essa quantia).

Vários países vêm se mobilizando para ajudar o combate ao Ebola na região. Nigéria, Austrália, Canadá, China, Japão e Reino Unido já colocaram à disposição quantias que variam de US$ 500.000 a US$ 5 milhões. Os EUA irão enviar 3.000 soldados para instalar centros de isolamento e fornecer segurança, um esforço que irá custar US$ 750 milhões. A Fundação Bill & Melinda Gates doou US$ 60 milhões.  Cuba, irá enviar 165 médicos e enfermeiras. A Malásia irá enviar 20 milhões de luvas médicas. O Brasil doou material de proteção para 500 trabalhadores da saúde.

Quais as chances de uma epidemia no Brasil?

O risco é muito baixo. Qualquer caso de suspeita trazido por um viajante internacional a um país com sistema de vigilância sanitária em funcionamento, como o nosso, pode ser atendido pelos procedimentos padrões existentes para doenças contagiosas, principalmente depois do alerta de emergência da OMS. Somente o contato direto com uma pessoa com sintomas pode provocar o contágio do Ebola. Para o viajante internacional, doenças comuns como a influenza e o sarampo são muito mais perigosas, pois são transmitidas pelo ar. Todo ano, 500.000 pessoas morrem de influenza, e 150.000 de sarampo.

A Pólio e o Ebola são alimentados pela pobreza. O Ebola se espalha porque não existe vacina para ele. Mas para a Pólio, não só temos as vacinas para a sua prevenção – mas para a sua erradicação! Apesar da equipe do Programa de Erradicação da Pólio da OMS estar mobilizada na contenção do Ebola, uma série de campanhas de vacinação começou na segunda quinzena de setembro nos países da África não afetados pelo Ebola.

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Wan Yu Chih
Presidente da Subcomissão Distrital Polio Plus e
Coordenador da Campanha End Polio Now Santa Catarina
Sócio do Rotary Club de Florianópolis

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