Bailarina

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Wan Yu Chih*

Muitos perguntam a nós que somos do Rotary, o que nos mantém firmes nessa luta contra a paralisia infantil, afinal a pólio é uma doença que quase não existe mais. Só que esse “quase” é muito pouco para uma doença tão perigosa como essa, uma das poucas que podem ser erradicadas com vacinas. A poliomielite é uma doença tão antiga, e que há tanto tempo a humanidade luta para combater, que é uma das poucas com muitas estórias, algumas dignas de uma epopéia e outras, pequenas, pessoais e dramáticas – como esta que eu quero contar para vocês.

Uma menina de 14 anos ingressou na escola de ballet de NY. Anos mais tarde, tornou-se a primeira bailarina da companhia. Linda e muito famosa, no auge da carreira, ela foi atacada pelo vírus da pólio, aos 27 anos de idade. Primeiro, ela teve paralisia nas pernas, e sentiu dores terríveis, por dias seguidos (pois o vírus ataca o sistema nervoso). Quando o vírus chegou ao diafragma, ela parou de respirar, e foi colocada num pulmão de aço.

Muitos acham que ela foi infectada quando, por curiosidade, molhou os dedos no canal de Veneza, para saber se a água era doce ou salgada. Isso aconteceu durante uma tournée na Europa, em 1956 – exatamente um ano após a descoberta da primeira vacina contra a pólio. Antes da tournée, e por precaução, a direção da companhia de dança chamou todas as bailarinas para serem vacinadas. Mas ela, com receio da vacina, deu uma desculpa e não foi.

Felizmente, ela sobrevive. Mas, nunca mais voltaria a pisar num palco. Seu casamento se desintegra, e ela passa a viver o resto da vida em uma cadeira de rodas – sozinha, sem ninguém. O nome da bailarina é Tanny Le Clercq.

Todo drama tem sua dose de ironia. E esse não podia ser diferente. Quando Tanny tinha 16 anos, ela foi dançar em um show beneficente da Marcha dos Centavos. Para quem não sabe, a Marcha dos Centavos foi o primeiro movimento (iniciado nos EUA nos anos 40) para arrecadar fundos para o tratamento das vítimas e pesquisa de vacinas. Seu futuro marido, um famoso coreógrafo, escreveu a peça e fez o papel do vilão — o vírus da pólio. E a Tanny fez o papel da vítima — uma bailarina perseguida pela pólio, que no final da encenação é salva graças à vacina.

Esse drama é uma história real, e é o tema de um filme que estreou na semana passada nos EUA. Esse mesmo drama se repete até hoje, só que com pessoas desconhecidas, em lugares distantes. Os lugares mais contaminados do mundo são justamente os mais pobres. Por isso, não é surpresa que o passo final da erradicação será um passo de humanidade com aqueles que não vemos, um passo que acontece por detrás da cortina da pobreza, onde pessoas morrem em silêncio, sem ninguém para ouvi-las. Chegar ao fim da pólio será, portanto, um teste para a nossa civilização: mostrar como tratamos as pessoas mais vulneráveis da terra, mostrar como nos importamos com as pessoas que não vemos.

O Rotary começou a luta contra a pólio em 1979 nas Filipinas (país que vive agora uma tragégia causada pelo furação), quase 10 anos antes de começarmos o programa de erradicação global. Então, muitos perguntam como é que nós conseguimos manter essa chama viva, até hoje? Para saber a resposta, basta se perguntar, “Como alguém pode aceitar que crianças continuem a morrer e ficar aleijadas hoje em dia, depois de 50 anos que a vacina foi inventada, uma vacina tão barata, e tão fácil de ser aplicada?”

Fizemos muito progresso desde então. A 25 anos atrás, a pólio era uma doença que aleijava e matava 350.000 pessoas por ano em mais de 120 países. No ano passado, tivemos apenas 220 casos e três países endêmicos que nunca deixaram de abrigar o vírus. E são estes que continuam exportando a doença agora para os países vizinhos da África e Oriente Médio, justamente aqueles com conflitos armados. O recente retorno da doença à Síria, país que estava há 14 anos livre da pólio, é mais uma prova de que, enquanto o vírus existir em alguma parte do mundo, ninguém está seguro. Felizmente, a recente trégua obtida pelas Nações Unidas irá permitir o retorno dos vacinadores para atacar os surtos da doença. Por isso mesmo, a Iniciativa Global de Erradicação da Pólio é considerada o maior movimento social organizado do planeta, em tempos de paz. Fazemos parte de um exército de 20 milhões de pessoas, entre trabalhadores da saúde e voluntários. Destes, um milhão e duzentos mil são do Rotary.

A erradicação da pólio será a primeira grande conquista humanitária deste século. Não é sempre que o mundo se propõe a acabar com uma doença em escala global, e é bem sucedido. Isso só aconteceu uma vez, em 1979, e foi com a varíola. Precisamos da ajuda de todos. Fala muito pouco para acabar com a pólio. Falta só isto. Não deixemos que essa terrível doença continue destruindo vidas e sonhos de meninos e meninas – algumas delas, quem sabe, futuras bailarinas.

Faça parte da história. Acabe com a pólio agora!

* Coordenador da Campanha END POLIO NOW Santa Catarina Rotary Distrito 4651. Discurso proferido em Biguaçu, SC, 10/11/2013.

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