Paralisia infantil pode ser a segunda doença a ser erradicada ainda nesta geração.


Na foto, o ginasta olímpico Feng Zhe, durante o Social Good Summit 2012 em Beijing, China.

Wan Yu Chih *

Num mundo com tantos avanços tecnológicos, a humanidade somente conseguiu eliminar uma doença da face da terra: a varíola, em 1979. Mas a nossa geração tem a oportunidade de dar o mesmo fim para a paralisia infantil. Restam apenas três nações nas quais a doença é endêmica. Em 1988, quando a Iniciativa Global para a Erradicação da Pólio foi lançada pela Assembleia Mundial da Saúde, ocorriam 350.000 novos casos por ano, quase 1.000 por dia. Passados 25 anos, conseguiu-se baixar 99,9% do número inicial. Em 2012, pouco mais de 200 casos foram registrados em alguns países da África e Ásia, e dentre eles a Nigéria, Paquistão e Afeganistão, que nunca deixaram de abrigar o vírus causador da moléstia e representam uma ameaça aos países vizinhos e ao programa em si. Recentemente o vírus retornou à Somália e Quênia, originário da Nigéria. Clara demonstração de que, enquanto ele existir, nenhum país estará seguro. Vivemos num mundo conectado e pequeno e um viajante pode espalhar o vírus pelo mundo em questão de horas.

O vírus da pólio ingressa no corpo através da ingestão de água ou alimento contaminado com matéria fecal liberada por uma pessoa infectada, ataca a medula espinhal e paralisa braços, pernas e músculos que controlam a respiração. No passado, era comum ver imagens de crianças e adultos enclausurados em pulmões de aço para que não morressem asfixiados. Como a doença se manifesta apenas em uma pessoa a cada 200 infectadas – crianças em sua maioria – passa despercebida e o vírus prossegue espalhando-se silenciosamente. Por isso, todas as crianças devem ser imunizadas, o que consome recursos que poderiam ser empregados em outras enfermidades que matam muito mais. A Organização Mundial da Saúde afirma que os benefícios da erradicação da poliomielite possam chegar aos 50 bilhões de dólares, com vacinas, campanhas e atendimento hospitalar, que não deixarão de ser necessários. O que é mais um incentivo para se finalizar a erradicação. E ainda, a erradicação irá deixar um enorme legado ao mundo, através dos sistemas nacionais implantados de vigilância epidemiológica de doenças, da rede global de laboratórios e de comunicação de doenças contagiosas.

A crônica falta de recursos sempre foi um grande obstáculo. Mas agora, pela primeira vez na história do programa, o encontro de cúpula para vacinas de Abu Dhabi, em abril deste ano, assegurou os recursos necessários para levar adiante essa iniciativa até sua conclusão. Desde o início, a erradicação da pólio já dispendeu 10 bilhões de dólares. O fim da doença está previsto para 2018 e são necessários mais 5,5 bilhões de dólares até lá – mais que a metade do que foi gasto até aqui. Os especialistas afirmam que a fase final é sempre a mais difícil em todos os aspectos, pois se concentra nos últimos rincões – aqueles que mais deficiências e desafios apresentam em termos de recursos, sistemas públicos de saúde, segurança, acesso físico e populações que se recusam a cooperar.

A conclusão do programa de eliminação da poliomielite na região das Américas em apenas nove anos, em 1994, provou ser possível atacar a doença em vastas áreas continentais. Além disso, o combate à pólio foi integrado aos programas nacionais de imunização básica e de serviços básicos de saúde, gerando grande aceitação da população. Em contraste, a iniciativa não atingiu o mesmo desempenho na África e na Ásia. Doze anos depois de iniciado o programa global, nenhum país africano tinha começado ainda as campanhas de imunização. Apesar das vacinações serem financiadas internacionalmente, outras ações se fazem necessárias. A verdade é que a erradicação vai muito além da esfera da saúde pública, sendo necessário o apoio de outras áreas, como segurança, transporte e toda sociedade.

O fato de a poliomielite estar afastada daqui há tanto tempo, e em outros lugares, torna difícil a mobilização pública em iniciativas de levantamento de fundos e de chamamento da atenção dos governos para o fim da doença no globo. Apesar disso, a iniciativa ainda tem uma dimensão sem precedentes. Mais de 20 milhões de pessoas, trabalhadores e voluntários estão envolvidos nessa guerra. Um dos atores chaves é uma ONG que se propôs a financiar a causa desde o começo. Em 1979, imediatamente após o anúncio da erradicação da varíola, o Rotary International iniciou campanhas de imunização nas Filipinas, e depois em países da África e América Latina. Em 1985, financiou o programa liderado pela Organização Panamericana da Saúde de eliminação da pólio na região das Américas e, em 1988, lançou a iniciativa global de erradicação liderado em conjunto com a Organização Mundial da Saúde, UNICEF e CDC. O Rotary é o braço voluntário da iniciativa é um de seus maiores doadores privados, com mais de 1 bilhão de dólares, e além disso atua na advocacia junto aos governos e na mobilização social em campanhas de vacinação nos países em que está presente. A organização, composta por 1,2 milhões de voluntários, ajudou a imunizar mais de 2,5 bilhões de crianças em 122 países.

A cada 24 de outubro se celebra o Dia Mundial contra a Pólio, em homenagem a Jonas Salk, cientista descobridor da primeira vacina contra a poliomielite (injetável), inicialmente adotada pelos países ricos. Contudo, foi a segunda vacina inventada (a oral), do médico Albert Sabin, que possibilitou o combate em escala global, graças à facilidade de aplicação e baixo custo. Agora, na etapa final, a vacina injetável voltou a ser utilizada. Após o fim da pólio, poderemos abandonar essas vacinas e partir para a escolha da próxima doença a ser erradicada no mundo. Nosso país começou a imunizar as crianças, intensivamente, há 33 anos. No ano que vem, completaremos 25 anos sem a doença no Brasil. Por isso, a imagem do Zé Gotinha é mais lembrada que a da doença paralisante que ele procura evitar. O Brasil foi crucial no processo de erradicação da pólio nas Américas e pode agora exercer o mesmo papel em relação ao mundo. Cada cidadão pode ajudar. Visite o site endpolio.org/pt para saber como.

* Coordenador da Campanha END POLIO NOW Santa Catarina Rotary Distrito 4651

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