O Afeganistão que a guerra escondeu

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Crianças nas ruas de Cabul, capital do país: histórias de gente que ama, sonha, resiste.

Em duas entrevistas exclusivas à Brasil Rotário, rotariano afegão e fotógrafa norte-americana revelam detalhes do combate à pólio e do dia a dia neste país ainda desconhecido.
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Wan Yu Chih*
Fotos: Gloriann Liu

Terra de uma rica herança cultural, o Afeganistão continua sendo um mistério para a maioria das pessoas, que costumam associá-lo apenas à guerra contra o Talibã, foco principal das frequentes notícias sobre o país. Em entrevistas exclusivas com o rotariano Ajmal Pardis, médico e presidente da Comissão Nacional Polio Plus no Afeganistão, e a fotógrafa norteamericana Gloriann Liu, autora das imagens que ilustram esta reportagem, você saberá como está a situação do combate à pólio no país, um dos últimos onde o vírus ainda é endêmico, e conhecerá um pouco da vida e dos costumes de sua gente.

Esta matéria é mais uma parceria entre a Brasil Rotário e a Campanha End Polio Now Santa Catarina, do distrito 4651.
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Um país cada vez mais perto do fim da poliomielite

Associado ao Rotary Club de Jalalabad, Ajmal Pardis é uma das principais autoridades no combate à pólio no Afeganistão. Lutando contra a falta de recursos e a resistência de parte da população à vacina, ele nos fala dos desafios dessa reta final da erradicação: “Se não estivermos comprometidos com seu fim, o vírus poderá infectar novamente as pessoas e os países onde foi erradicado”

WAN YU CHIH: Qual é o papel do presidente da Comissão Nacional Polio Plus no Afeganistão?

AJMAL PARDIS: Sou o representante da Fundação Polio Plus do Rotary International (RI) no Afeganistão. Assim, participo das reuniões governamentais e de fronteira com o Paquistão, represento o RI nos encontros com os doadores e me encontro com os líderes islâmicos para que eles apoiem a vacinação. Além disso, participo dos treinamentos de voluntários e do monitoramento das campanhas, faço a defesa da causa do país junto à Fundação Rotária para que nos doem recursos e comunico o governo toda vez que uma doação é feita pelo Rotary ao Unicef ou à Organização Mundial da Saúde. Também falo com a imprensa sobre o apoio do Rotary ao programa de erradicação da pólio.

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Ajmal Pardis

Como foi que o senhor chegou a essa posição?

Sou médico e atuo há 15 anos na área da saúde pública. Fui diretor de Saúde da Região Ocidental e coordenador de pediatria dos hospitais da província de Nangarhar. Em 2008, ingressei no Rotary Club de Jalalabad e participei de um Intercâmbio de Grupo de Estudos do Rotary na Califórnia. No ano seguinte, fui convidado a assumir a posição que ocupo hoje no Rotary.

O que aconteceu com os RotaryClubs do país durante as três décadas de guerras?

Em 2009, tínhamos 30 associados em Jalalabad, e agora somos cinco. Apesar de o Rotary ser uma organização internacional apolítica e não religiosa, a maioria das pessoas daqui pensa que somos apoiados por cristãos ou judeus, imagem que dificulta o crescimento do quadro associativo no país.

Achávamos que o último caso de pólio no Afeganistão tivesse acontecido em março deste ano. Todavia, soubemos pelo senhor que um novo caso da doença foi descoberto em junho. Como o senhor se sente a respeito?

O governo está comprometido com a causa e temos uma força-tarefa interministerial. Os governadores e diretores de saúde das províncias também estão comprometidos e reúnem-se frequentemente. O governo criou uma equipe exclusiva para o combate e o monitoramento da pólio. O país está usando tecnologia móvel e negociadores para atuar em áreas de segurança comprometidas. Tudo isso tem dado bons resultados. A região sul, que é endêmica do vírus, não tinha um caso há mais de sete meses. Mas, infelizmente, foi detectado um caso recente em junho, de um menino [vírus possivelmente importado do Paquistão]. Em matéria de saúde, existem duas categorias de doenças: algumas são erradicáveis e as outras, não. A pólio é uma doença que pode ser erradicada.

O Afeganistão faz fronteira com o Paquistão, país também endêmico. Quais são os perigos e desafios do combate à pólio nessa fronteira? Qual é o papel do Rotary nesse trabalho?

Os perigos estão associados aos ataques dos grupos contrários ao governo existentes na região. Diariamente, mais de 2.000 crianças cruzam a fronteira por Torkham [localizada 70 quilômetros a oeste de Jalalabad]. Boa parte do trabalho do Rotary é dedicada a reduzir a rejeição contra a vacinação. O grande desafio para os dois países é o monitoramento da doença na extensa fronteira [cerca de 2.000 quilômetros], com vários pontos de travessia sem controle.

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Vítima da pólio num hospital da Cruz Vermelha e criança sendo imunizada: erradicação entra em sua reta final

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Existem cerca de 30 idiomas de etnias minoritárias. Não existem dificuldades de comunicação durante as campanhas de imunização?

A maioria fala um dos dois idiomas oficiais. Mas temos problemas com os programas de comunicação organizados pelo governo central. A comunicação precisa ser mais descentralizada e delegada às províncias para que os diferentes grupos étnicos sejam atingidos com mais eficiência.

Como estão as relações das equipes de vacinadores com o Talibã? O bloqueio à vacinação pode voltar?

As relações variam dependendo do local. No sul, existe um conflito entre o governo e o Talibã, que dificulta a realização dos programas de imunização. Na região ocidental, alguns grupos do Talibã são cooperativos e outros não, especialmente na província de Kunar [100 quilômetros ao norte de Jalalabad, perto da fronteira com o Paquistão].

A Iniciativa Global de Combate à Pólio liderada pelo Rotary e seus parceiros começou em 1988. O Afeganistão faz parte de um grupo de países que iniciou tardiamente as campanhas de vacinação, somente depois do ano 2000. Por que isso aconteceu?

Nosso país se encontrava ocupado combatendo conflitos e guerras. Existem programas de saúde realizados em outros países que sequer cogitamos adotar, por limitação de recursos. O Rotary e seus parceiros já colocaram muito dinheiro para acabar com a pólio.

Existem críticas de que o dinheiro e o esforço gastos no combate à pólio poderiam ser usados para sanar doenças como sarampo, tuberculose ou diarreia, que afligem um número maior de crianças que a pólio. O que o senhor pensa a respeito?

As pessoas estão cansadas da vacinação contra a pólio e perguntam até quando terão que vacinar seus filhos. Todo programa, quando chega perto do fim, encontra resistência da população. De um modo geral, o povo reclama por saúde básica. Nas áreas remotas, reclama por ambulatórios e hospitais. Quando olhamos para trás, vemos que a poliomielite era uma pandemia mundial, com mais de 300 mil vítimas por ano, e por isso tornou-se uma prioridade. Agora, a doença está quase no fim e limitada aos países endêmicos. Se não estivermos comprometidos com seu fim, o vírus poderá infectar novamente as pessoas e os países onde foi erradicado.

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Histórias de vida que precisam ser contadas

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Gloriann Liu

Professora de artes durante 20 anos, a fotógrafa norte-americana Gloriann Liu vive hoje em San Luis Obispo, na Califórnia. Com trabalhos publicados em grandes jornais como o The New York Times, a nosso convite ela registrou as ações do Rotary no combate à pólio no Afeganistão – as imagens, gentilmente cedidas à Brasil Rotário, ilustram esta reportagem. Na entrevista a seguir, Gloriann comenta sua experiência: “Espero contribuir de alguma forma para tornar o mundo um lugar melhor”

WAN YU CHIH: Você viajou ao Afeganistão diversas vezes por mais de 10 anos. Como foi que surgiu o seu interesse por esse país e o seu povo?

GLORIANN LIU: Recordo-me da primeira vez em que vi imagens do Afeganistão e tive um sentimento incrível de espanto e admiração. Em 2003, após ter viajado por muitos anos pelo Oriente Médio, tive a oportunidade de ir à Ásia Central. O Afeganistão é um país cheio de contrastes, que vão do encantamento ao extremo caos. Como muitos viajantes, me sinto reverenciada pelo cidadão comum, cuja hospitalidade e generosidade são desconhecidas pela maioria das pessoas de fora. Devido à sua localização geopolítica, o país tem sido flagelado por guerras e conflitos, sujeitado a mercenários há séculos. A maioria que vive fora das cidades é analfabeta, e muitas tradições são inaceitáveis para o mundo externo. Apesar disso, ainda me sinto encantada e tenho um constante desejo de retornar ao Afeganistão.

Por que você aceitou o convite para colaborar com o Rotary?

Conhecendo o enorme esforço que os Rotary Clubs espalhados pelo mundo têm feito para ajudar os mais necessitados, me senti honrada quando fui convidada a ajudar a divulgar o enorme desafio de erradicar a pólio no Afeganistão.

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Ao fundo, a fachado do escritório em Jalalabad da Iniciativa Global de Erradicação da Pólio

O que mais lhe chama a atenção nas pessoas do Afeganistão?

A grande semelhança entre o povo afegão e outros povos que conheço é a necessidade básica de amor e de cuidar das suas famílias. Ao entrar em qualquer casa, não importa a situação econômica da família, o visitante é sempre bem recebido. Mesmo no lar de um pedinte, oferecem a você chá e comida, se houver. Essa é a maior diferença e a que mais me agrada. Em cada um desses países existem histórias que precisam ser contadas. Histórias de pessoas vitimadas pela guerra, por conflitos, pobreza e injustiça.

Você já sentiu medo alguma vez fazendo o seu trabalho no Afeganistão?

Sem dúvida, o perigo é algo sempre presente no Afeganistão. Sou muito afortunada por ter ao meu lado pessoas em quem confio e que se preocupam com a minha segurança e bem-estar. Tenho sempre em mente o que Franklin Roosevelt disse: “A única coisa que devemos temer é o medo”.

“Ao entrar em qualquer casa, não importa a situação econômica da família, o visitante é sempre bem recebido. Mesmo no lar de um pedinte, oferecem a você chá e comida, se houver”

Você também trabalhou em projetos no Egito, Líbano, Sri Lanka, Bangladesh e Síria. Existe um denominador comum?

Eu tento documentar a condição humana nesses lugares e como as pessoas superam o sofrimento e as dificuldades. Tento sempre estabelecer uma relação de empatia com as pessoas que fotografo. As fotografias são de alguma forma um autorretrato do fotógrafo, e em meu trabalho há sempre uma busca do meu ser interior. Espero contribuir de alguma forma para tornar o mundo um lugar melhor.

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*O autor é presidente da Subcomissão Polio Plus do Rotary no distrito 4651 (Santa Catarina) e associado ao Rotary Club de Florianópolis.

Publicado na edição de setembro de 2013 da Revista Brasil Rotário.

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