Saúde, uma ponte para a paz.

Ciro de Quadros photo

Vice-presidente do Sabin Vaccine Institute e uma das maiores autoridades mundiais em saúde pública, o brasileiro Ciro de Quadros analisa a fase final de erradicação da poliomielite, destaca a participação do Rotary e explica como essa experiência pode ser útil no combate a outras doenças.

Wan Yu Chih e Nuno Virgílio Neto*

O fato de a poliomielite estar erradicada no Brasil há mais de 20 anos torna difícil a mobilização de muitos brasileiros, mesmo rotarianos, em iniciativas de levantamento de fundos para o combate a essa doença nos países onde ela ainda é endêmica. Para os que pensam assim, a pólio tornou-se um problema distante, perdido no tempo, e que parece não nos trazer mais riscos. Apesar das dificuldades, grandes progressos têm sido alcançados recentemente. Para falar sobre isso, conversamos com o médico epidemiologista Ciro de Quadros. Gaúcho de Rio Pardo, ele é uma das mais importantes autoridades mundiais em saúde pública, tendo liderado a erradicação da varíola na Etiópia e a eliminação da pólio, do sarampo e da rubéola nas Américas.

Atualmente vivendo em Washington, nos EUA, Ciro é vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, membro do Conselho Independente de Monitoramento da Iniciativa Global para a Erradicação da Pólio (Gpei), e professor da Universidade de Johns Hopkins e da Universidade George Washington, dedicando-se em seu dia-a-dia à defesa do uso de vacinas para o combate às doenças preveníveis – e tem inspirado muitas pessoas para a importância de se acabar com a pólio.

Essa entrevista é uma parceria entre a Campanha End Polio Now Santa Catarina, do distrito 4651, e a revista Brasil Rotário.
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NUNO VIRGÍLIO NETO (NVN): Quais são os principais desafios impostos pelo vírus da pólio nos países onde ele ainda é endêmico?

CIRO DE QUADROS: Neste momento os principais desafios estão relacionados a aspectos gerenciais dos programas na Nigéria, no Paquistão e no Afeganistão, bem como a problemas de segurança para os vacinadores em zonas onde existem conflitos sociais nestes três países – principalmente em áreas do Nordeste da Nigéria e do Noroeste do Paquistão. Com a última eleição no Paquistão, ainda não se sabe como o novo governo irá encarar esses problemas.

NVN: Depois que o vírus estiver erradicado nesses países, estaremos definitivamente livres da pólio ou entraremos num estado de permanente vigilância? Quais são os riscos do vírus continuar circulando pelo mundo?

Depois da certificação da erradicação, o risco de circulação do vírus no mundo é praticamente zero. No entanto, a vigilância epidemiológica deve prosseguir com muita precisão.

WAN YU CHIH (WYC): A Índia e a Nigéria são apontadas como países em que a vacina oral se mostrou menos eficiente, por conta das precárias condições sanitárias locais e da forte presença de outros vírus nos intestinos das crianças, que chegam a receber mais de 10 doses da vacina até adquirirem imunidade. A interrupção da transmissão do vírus da pólio na Índia foi uma grande conquista, mas ela só aconteceu depois que a vacina trivalente foi substituída pela vacina bivalente. Isso não poderia ter sido feito há mais tempo?

Sim, poderia. Mas as adaptações das estratégias nem sempre são feitas a tempo. É necessário coletar a informação do terreno, analisá-la e então tomar as decisões adequadas.

WYC: Na década de 1980, o senhor dirigiu o Programa de Imunização da Organização Panamericana da Saúde (Opas) e propôs eliminar a pólio como carro-chefe para implantar, na região das Américas, o Programa de Imunização Expandida (EPI), preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Unicef. Por que o senhor escolheu a pólio e não o sarampo?

A pólio foi escolhida porque já havia um grande interesse dos governos em controlar essa enfermidade e vários países já haviam interrompido sua transmissão. Por isso, fez muito sentido escolher a pólio como carro-chefe. E estávamos certos, pois depois da eliminação dessa doença nas Américas os governos partiram para a eliminação exitosa do sarampo e da rubéola na região.

Neste momento os principais desafios estão relacionados a aspectos gerenciais dos programas na Nigéria, no Paquistão e no Afeganistão, bem como a problemas de segurança para os vacinadores em zonas onde existem conflitos sociais.

WYC: Como aconteceu seu contato com o Rotary e como foi o trabalho que se desenvolveu com os rotarianos no programa da Opas?

O momento em que a Opas decidiu propor a erradicação da pólio coincidiu com o interesse do Rotary pela mesma meta. Neste sentido, solicitamos discutir com o Rotary como poderíamos trabalhar em conjunto para alcançar esse objetivo.

WYC: Numa entrevista concedida em Nova Iorque durante o lançamento da Carta Anual do Bill Gates, em 2011, o senhor disse que, por não faltarem recursos nessas regiões, a pólio foi eliminada em cinco anos nas Américas e em três anos no Pacífico Ocidental. O senhor disse também que a falta de recursos nos últimos anos tem forçado frequentes mudanças na estratégia que têm levado à demora em acabar com a poliomielite. Não teria sido o contrário? Não foram os constantes atrasos em relação às previsões que desmotivaram os doadores, ocasionando a falta de recursos?

Isto é um catch 22 [expressão norte-americana equivalente ao nosso “sinuca de bico”]. Por um lado, a crônica falta de recursos foi sempre um obstáculo muito grande para o programa, e por outro, a falha em alcançar os objetivos preocupou os parceiros que o apoiam. Neste momento, pela primeira vez na história do programa, a reunião de Abu Dhabi promovida por Bill Gates assegurou os recursos necessários para levarmos adiante essa iniciativa até sua conclusão. Agora não existe mais a desculpa da falta de recursos, e se os problemas mencionados anteriormente forem tratados devidamente, o programa poderá ter o final desejado por todos nós.

WYC: Iniciada em 1988, a erradicação da pólio já mobilizou 10 bilhões de dólares. Até a certificação do fim da doença, prevista para 2018, serão necessários mais 5,5 bilhões de dólares – mais que a metade do que tudo o que foi gasto até agora. Por que essa fase final, chamada de endgame (ou “fim de jogo”), é proporcionalmente mais cara que a anterior?

Em geral, em programas desta natureza os recursos necessários aumentam na fase final, que é sempre a mais difícil em todos os aspectos – como segurança, logística, acesso a áreas remotas e populações que se recusam a cooperar, entre outros.

WYC: O sucesso na eliminação da pólio nas Américas provou que sua visão estava certa: era mesmo possível eliminar a doença e, junto com isso, melhorar a saúde básica dos países em desenvolvimento. Todavia, a erradicação global da pólio não teve o mesmo destino, principalmente nos últimos países endêmicos, onde vozes contrárias criticam a priorização da erradicação por concentrar recursos que seriam destinados a serviços básicos de saúde ou à imunização de outras doenças que afligem mais aqueles povos, como a malária e a tuberculose. O que foi que aconteceu de diferente em relação ao tão bem-sucedido programa nas Américas?

A erradicação da pólio nas Américas foi integrada aos demais programas nacionais de imunização, servindo para reforçar todo o sistema de entrega dos serviços de saúde. Uma avaliação independente demonstrou que o programa reforçou os sistemas e serviços de saúde nesses países. Em nível global, a erradicação foi separada dos programas nacionais de imunização, operando de uma maneira vertical e não tendo o mesmo impacto nos serviços de saúde, como nas Américas. Isto causou desconforto em vários países, pois não houve benefício visível em relação a outros programas de saúde.

NVN: Quais foram as lições tiradas do enfrentamento global da pólio e como elas podem nos ajudar a combater outras doenças?

Uma lição importante é que não se deve iniciar um programa dessa magnitude sem antes assegurar que os recursos necessários estão disponíveis. Por outro lado, as estratégias devem ser avaliadas permanentemente a fim de que se possam fazer os ajustes necessários ao alcance do maior impacto.

WYC: Quando se anunciou no recente Global Vaccine Summit, em Abu Dhabi, que atingimos a marca de 4 bilhões de dólares em doações, o senhor disse que “agora, a erradicação da pólio não é mais um programa de saúde pública, mas um programa diplomático.” Poderia nos explicar essa afirmação?

Minha opinião é que agora temos os recursos, um plano de ataque, os conhecimentos técnicos e científicos para erradicar a pólio, mas os obstáculos maiores se referem a problemas de segurança, terrorismo e distúrbios sociais. Neste sentido, necessitamos usar toda a nossa expertise diplomática para abrirmos um diálogo com as forças contrárias ao programa a fim de que se chegue ao objetivo desejado. Algo similar a uma iniciativa desenvolvida nas Américas com o nome Saúde, uma Ponte para a Paz poderia ser uma tentativa de abrir esse diálogo.

WYC: Após o fim da pólio, haverá uma próxima erradicação? Qual seria um bom objetivo comum a ser perseguido pela humanidade na área da saúde?

As doenças que poderiam ser combatidas depois da pólio são o sarampo e a rubéola, já erradicados das Américas.

O mais importante é manter a vigilância e lutar para que a prioridade deste programa se mantenha até que a vitória final seja alcançada.

WYC: Após a faculdade de medicina em Porto Alegre e o mestrado em saúde pública no Rio de Janeiro, o senhor foi trabalhar na Amazônia e depois viveu por sete anos na Etiópia, onde dirigiu a erradicação da varíola. Atualmente, o senhor mora nos EUA. Como ligaria esses pontos, considerando que são lugares e experiências tão diferentes em sua carreira? Vivendo há tanto tempo fora do país onde nasceu, do que o senhor sente falta do Brasil?

Uma vez que decidimos trabalhar em saúde global, o mundo se torna pequeno e, em cada lugar onde a gente vive, ganham-se experiências e lições que podem ser aplicadas em qualquer país. Poderia-se dizer que a pessoa se torna um “cidadão global”. Neste sentido, sente-se falta de pequenos detalhes de cada lugar em que se viveu, tanto do ponto de vista cultural como social.

WYC: No ano passado, ao receber o Prêmio BBVA na Espanha, o senhor se emocionou ao agradecer o apoio de sua família. É difícil ser um líder mundial da saúde pública e pai de família ao mesmo tempo? Poderia nos falar um pouco sobre como é o Ciro de Quadros no âmbito pessoal? O que o senhor gosta de fazer quando não está trabalhando?

Numa profissão em que a pessoa viaja frequentemente, é claro que a família sofre um pouco, mas eventualmente se adapta a essas circunstâncias. Não tenho realmente um hobby, mas gosto de cinema, de teatro e artes plásticas. Também gosto de ler, não somente literatura científica, mas literatura em geral.

WYC: O senhor pensa em escrever um livro de memórias para contar o que viu durante os quatro programas de erradicação ou eliminação de doenças dos quais participou?

Já escrevi vários capítulos em livros que relatam minha trajetória e participação em vários projetos de controle e erradicação de doenças globalmente.

WYC: Como o senhor vê o papel de organizações como o Rotary no futuro da saúde pública global?

O Rotary tem um potencial enorme para impactar outros problemas de saúde global. Por exemplo, em um projeto do Sabin Vaccine Institute no Nepal, o Rotary está organizando um fundo especial para arrecadar recursos do setor privado para o programa nacional de imunizações. Este é um exemplo que poderia ser transplantado para outros países, pois irá ajudar a financiar a introdução de novas vacinas nos programas nacionais.

NVN: Como o senhor avalia a participação do Rotary na Iniciativa Global de Erradicação da Pólio?

O Rotary é um dos parceiros mais importantes nesta iniciativa, não somente pelo que contribui financeiramente, mas em especial pela advocacia junto aos governos e por sua participação ativa e voluntária durante as campanhas de vacinação.

Ciro Rotary award 2010

WYC: O que o senhor diria às pessoas que querem ajudar a erradicar a pólio?

O mais importante é manter a vigilância e lutar para que a prioridade deste programa se mantenha até que a vitória final seja alcançada.

NVN: O fato de a poliomielite estar erradicada no Brasil há mais de 20 anos torna difícil a mobilização de muitos brasileiros, mesmo rotarianos, em iniciativas de levantamento de fundos para o combate à doença nos países onde ela ainda é endêmica. A pólio tornou-se um problema distante, perdido no tempo, e que não nos traz mais riscos. Que mensagem o senhor deixaria para quem pensa assim?

O mundo hoje é uma pequena aldeia. Portanto, enquanto houver um caso de pólio em qualquer lugar do planeta, ainda que distante, todos os países estarão correndo o risco de serem atacados pela doença.
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* Os autores são, respectivamente, presidente da Subcomissão Polio Plus do Rotary Distrito 4651 e redator-chefe da Brasil Rotário.

Publicado na edição de julho de 2013 da Revista Brasil Rotário.

Um comentário sobre “Saúde, uma ponte para a paz.

  1. Gostei muito deste artigo. É uma excelente ferramenta de conhecimento sobre os trabalhos do Rotary no que tange à proposta de erradicação da Pólio.

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